"Como todas as tardes fazia, continuei a fazer.
Mas desta vez, sem ti.
Não há mais passeios sobre a dura areia molhada.
Não há mais passeios pelos isolados jardins.
Não há mais escapatórias à noite para me encontrar contigo.
Não há mais encontros secretos.
Não há mais entradas pela janela do quarto às tantas da madrugada.
Não há mais uma vida a dois.
Não há.
Mas a vida continua, certo?
É por isso que como sempre fizemos, eu continuo a fazer.
És impossível de esqueçer e díficil de lembrar.
É por isso que caminho sozinho pela deserta praia.
É por isso que ainda me deito no vasto jardim a olhar o céu.
Vivo a nossa vida, sem ti.
Por vezes, sinto que ainda aqui estás.
Sinto que quando me voltar para trás vou ver-te à minha frente.
A pedir desculpas por me teres abandonado.
Para me dares a mão e me acompanhares neste passeio solitário.
Mas não.
Era apenas um vulto.
Nada mais que um vulto.
Ou nem isso.
Se calhar nunca existis-te.
Se calhar sempre foste pura ilusão...
Onde outrora havia quatro pegadas, há duas.
Onde outrora havia dois corpos no verde da relva, há um.
Onde numa outrora vida perfeita existiam dois seres conjugados num só, há um."
Não há palavras.
Simplesmente não há palavras para descrever.
Porque me sinto assim?
Como se sempre tivesses existido, e na realidade nunca passas-te de um pensamento?
Porque sinto sempre um vazio, se aparentemente nunca houve nada que o cria-se?
Porque tem sempre que existir aquele estereótipo de um ser e de uma vida como nos filmes?
Um ser, aparentemente perfeito, que depois de nos quase matar, volta para nós?
Como se não bastasse esse só ser, tem que existir outro.
Outro para nos meter confusos em relação ao que sempre sentimos pelo ser que nos abandonou.
Tal ser irá voltar, e nós, estamos na embrulhada de sentimos.
Coisa banal.
Mas porque é que tenho que sentir e viver uma ilusão ?
Pensar que um dia, sim um dia!, vou finalmente dar-te a mão e passear à beira mar?
Pensar que um dia, vou-te ter nos meus braços para sempre?
Pensar que um dia, nos vamos conjugar num só ser?
Numa dura realidade, é complicado de sobreviver,
Onde tudo foi, agora nunca será.
Mas numa ilusão, é impossível de viver.
Mas numa ilusão, é impossível de viver.
Onde tudo poderia ser, nunca sobreviverá.

